MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO
Primeiro- OS SYMBOLOS
Segundo- O QUINTO IMPÉRIO
.ouvir Óleo de Carlos Alberto Santos
O QUINTO IMPÉRIO
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

 

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.

 

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

 

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será theatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

 

Grecia, Roma, Cristandade,
Europa- os quatro se vão
Para onde vae toda edade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu Dom Sebastião?

Comentários:

"Triste de quem..."- a mesma noção já encontrada em O das Quinas de que ser feliz é uma infelicidade porque se vive maquinalmente e não para o sonho ou para os cometimentos.

"a lição da raiz- ter por vida a sepultura"- na própria essência material do homem está, desde a sua origem, a inevitabilidade da morte.

"passados os quatro tempos do ser que sonhou"- referência ao rei assírio Nabucodonosor que, segundo a Bíblia, sonhou com uma estátua de quatro metais que o profeta Daniel interpretou como uma premonição de quatro grandes impérios sucessivos, dos quais o seu era cronologicamente o primeiro.

"que no atro da erma noite começou"- que começou nas trevas da noite deserta.

"Grécia, Roma, Cristandade, Europa"- os quatro impérios que Pessoa pensava ajustarem-se ao sonho do rei assírio.

"vão para onde vai toda a idade"- envelhecem e morrem; desaparecem.

"Quem vem viver a verdade?"- o Quinto Império sonhado por pessoa é uma abstracção de Luz (ou Verdade, ou Cultura- todos os termos são, nesta acepção, equivalentes). A frase deve ser lida "Quem vem viver o Quinto Império?".

"Quem vem viver a verdade que morreu Dom Sebastião?"- completa, a frase torna-se uma interrogação meramente retórica, a menos que se tome "que" na acepção de "porque" ou "para a qual". Nesse caso a frase torna-se "Quem viver a verdade (do Quinto Império) para a qual D.Sebastião morreu". Foi esta a acepção utilizada na minha versão inglesa, abaixo.

. .
Voltar ao índice de MENSAGEM de Fernando Pessoa
Lisboa, Portugal. Setembro 09, 2003
 
Revisto Janeiro 13, 2004
...ou visitar a minha home-page
João Manuel Mimoso
.  

English version

An introduction to the poem: In "The Fifth Empire" Pessoa continues his revision of the symbols of the Portuguese Milenarism. The poem starts by one of his favourite themes (also found in "The Field of the Escutcheons"): that homely happiness precludes creativity. When he goes about to the main subject he refers Nebuchadnezzar's dream from the Bible, interpreted by Daniel as a succession of four empires which would in time crumble. But the Fifth would be God's own and would last forever. And Pessoa offers the reader his own opinion of what empires were/are the four that precede the final one, yet to come...

The Fifth Empire

Pity him who lives at home
Happy with his life,
Without a dream, a flexing of wings,
To make him relinquish
Even the warmest ember of his hearth!

 

Pity him who is happy!
He lives because life lasts.
Nothing within him whispers
More than the primeval law:
That life leads to the grave.

 

Eras upon eras vanish
In the course of time, made of eras.
To be discontent is to be a man.
Let nature's forces be tamed
By the vision within the soul!

 

And so, past the four
Ages of the being that dreamed,
The world will be the stage
Of the bright day, that in the dark
Of the empty night began.

 

Greece, Rome, Christianity,
Europe - the four go
To where all age goes.
Who wants to live the truth
For which Don Sebastian died?